O nascimento de uma criança é um dos momentos mais mágicos na vida de alguém. Todos se mobilizam para cuidar da mãe e do neném. E chega o grande dia, tudo é cercado de muita apreensão e expectativa. Vem o parto e… nasceu! A mãe e o neném estão bem. É tudo só amor e alegria. Até que alguém repara que o neném não mexe direito um dos bracinhos? O que será? De repente toda aquela alegria se transforma em angústia.
O que é o plexo?
O plexo braquial é o conjunto de nervos que saem da medula na altura do pescoço, mais precisamente entre a quinta vértebra do pescoço (C5) até a primeira vértebra do tórax(T1). Chamamos de plexo pois esses nervos eles se fundem uns com os outros e se separam diversas vezes no pescoço, formando um emaranhado(plexo= entrelaçado em grego) nervoso. Esse conjunto de nervos são responsáveis por toda movimentação e sensibilidade do nosso membro superior, ou seja, do ombro até a ponta dos dedos.
A lesão do plexo braquial Neonatal
A lesão do plexo braquial neonatal é uma entidade que dificilmente alguém ouve durante o pré natal.
Chamamos de lesão plexo braquial neonatal toda lesão de plexo que ocorre em um neonato, ou seja, em um recém nascido. Há muitas situações que podem ocorrer durante o nascimento que podem ocasionar a lesão no plexo.
O principal mecanismo envolvido faz parte do um processo natural de nascer. Geralmente a criança nasce pela cabecinha, o que chamamos de apresentação cefálica. Durante o trabalho de parto o nenem é empurrado rumo ao canal vaginal. Neste processo, enquanto o neném desce pela bacia da mãe, o pescoço do neném é tracionada para um lado e o bracinho para o outro, estirando os nervos do plexo braquial da medula , podendo ocasionar lesões.
Isso pode decorrer durante um trabalho de parto mais complicado, principalmente nos mais prolongadas. Nestes casos a criança é submetida a estes “puxões” com mais frequência e intensidade. Em algumas outras ocasiões o neném pode começar a nascer pelo bracinho ao invés da cabeça. Neste casos a recém nascido fica ainda mais vulneral a esses repuxões.
Antigamente essas lesões eram chamadas de lesões de plexo braquial obstétrico. Isso trazia muita confusão pois muitos pais associavam que havia culpa dos obstetras na lesão, o que não é verdade.
Extensa pesquisa científica já foi realizada sobre esse tópico e hoje sabemos que o principal fator envolvido para desenvolver uma lesão de plexo é o peso da criança ao nascer. Crianças maiores são mais vulneráveis a sofrerem estiramento dos nervos durante o trabalho de parto. E é engano pensar que isso ocorre apenas nos partos vaginais ou mais conhecido como parto normal. Mesmo em cesárea isso pode acontecer.
Outro fator importante são complicações durante o parto. É por isso que muitos associavam essa lesão com obstétrica. Na verdade trabalhos de parto difíceis são a causa da lesão de plexo . Como muitas vezes nesses partos difíceis o médico ou enfermeiro obstétrico precisam lançar mão de manobras e recursos mais invasivos, as pessoas associam a realização desses feitos como causa da lesão. O que ocorre na verdade é que essas manobras são salvadoras, resguardam a segurança do neném e da mãe e o parto difícil , usualmente por ser uma criança maior é que realmente machucou o plexo.
O diagnóstico
Muitos pais e parentes não percebem imediatamente uma lesão no plexo braquial, podendo levar alguns dias até perceberem que há “algo errado com bracinho” do neném. Percebe-se assim que o bracinho não meche como do outro lado, mexendo pouco ou quase nada. Com os dias e semanas todo o membro superior da criança pode adotar uma postura diferente, dependendo muito do grau de lesão do plexo braquial podendo ficar com a o braço e a mãozinha virados para dentro ou completamente imóvel.
É de suma importância que toda criança em que se suspeite que tenha sofrido uma lesão de plexo braquial seja avaliado o quanto antes por um cirurgião de nervos. Felizmente a grande maioria das crianças sofrem o que chamamos de lesão parcial. Assim sendo, como reabilitação adequada há melhora importante na movimentação do bracinho.
Infelizmente muitas crianças não melhoram ou tem melhora discreta. É importante que a criança esteja em acompanhamento com um cirurgião de nervos. Crianças que não melhoram a mãozinha até o terceiro mês ou que não conseguem dobrar o cotovelo ao 6 meses geralmente tem indicação de tratamento cirúrgico.
O tratamento
Felizmente muitas crianças com lesões de plexo neonatal melhoram a medida que crescem e fazem reabilitação. Porém, algumas não. Como dito, crianças que não mexem a mãozinha até o terceiro mês ou não dobram o cotovelo até o sexto mês geralmente não vão evoluir bem . A melhor chance da criança é uma abordagem cirúrgica.
O tipo de tratamento cirúrgico nas lesões de plexo braquial são muitas e complexas. O principal fator envolvido é a idade em que essa criança será abordada e a extensão do machucado do plexo. A s principais técnicas cirúrgicas envolvidas são:
1-Reconstrução de nervos:
basicamente o cirurgião de nervos explorará o plexo braquial da criança e tentar avaliar quais os nervos acometidos e se há a possibilidade de reconstruir algum deles. Nervos que foram machucados na altura do pescoço muitas vezes podem ser reconstruídos pelo cirurgião. Geralmente um enxerto de nervo é necessário para realizar isso, sendo retirado geralmente de uma das perninhas da criança. Esse enxerto em nada compromete o funcionamento da perna da criança. Caso a lesão seja muito extensa ou as raízes do plexo braquial tenham sido arrancadas da medula, essa técnica não é possível.
2-Transferência nervosa:
nesses casos o cirurgião tenta aproveitar nervos bons da criança para tentar reinervar outros músculos que não estão funcionando adequadamente. Isso é empregado principalmente nas crianças com lesões parciais ou geralmente o ombrinho e o cotovelo não funcionam direito mas tem uma mãozinha que funciona bem. Aproveita-se de alguns desses nervos para recuperar alguns movimentos. Importante saber que a criança não perde nenhum movimento.
O mais importante
Toda criança com suspeita de lesão de plexo braquial neonatal deve ser avaliada o quanto antes por um cirurgião de nervos. Os melhores resultados são alcançados quando se tem um diagnóstico precoce e uma abordagem o mais cedo possível.
Infelizmente em nosso país muitas crianças não conseguem receber uma avaliação adequada ainda no primeiro ano. Nesses casos geralmente os melhores resultados possíveis, aqueles alcançados com a cirurgias de nervos não é possível. Isso não significa que não há nada que possa ser feito. Há outros recursos como as cirurgias de transplante de músculo ou de transferência de miotendinosas. Todas elas requerem uma avaliação minuciosa.
Além disso, toda criança deve ser acompanhada ao longo de todo seu crescimento, quer tenham sido operadas quando novas ou não. Devido a lesão de plexo, geralmente há desbalanços na musculatura do braço que vão sem pronunciando a medida que a criança crescer. O acompanhamento é importante pois a maioria desses desbalanços são tratáveis quer por reabilitação quer por cirurgia.
Um acompanhamento adequada garante que a criança se desenvolva adequadamente, tenha a melhor qualidade de vida possível e possa explorar toda sua potencialidade .